A pior forma de fazer funcionários cumprirem a obrigação

· 6 min de leitura

O dono fala, treina, conversa, cobra. E a equipe continua sem fazer o básico: atrasa, esquece de bater o ponto, não segue o procedimento. Quando ele está por perto, tudo anda. Quando sai, desanda. Aí aparece a ideia de criar um prêmio para quem cumprir o combinado, e essa é a pior forma de fazer funcionários cumprirem a obrigação.

Na live Papo Estratégico, Fernando Campanholo, o Campa, especialista em reestruturação de empresas, explica por que essa tentativa falha e o que precisa existir na empresa para a obrigação ser cumprida sem o dono por perto. Ele conhece a lista do que o empresário já tentou: reunião, treinamento, conversa, bônus, brinde, "até joguinho para motivar a equipe".

Live Papo Estratégico #005: A pior forma de fazer funcionários cumprirem a obrigação
Live Papo Estratégico #005. Assista à live completa.

Obrigação não se premia

Campa tinha uns 10 anos e dificuldade em língua portuguesa. Estudou, caprichou e tirou 10 na prova. Chegou em casa esperando o sorvete ou o presente que os colegas ganhavam dos pais. A mãe olhou para ele e respondeu: "Você não fez nada mais do que a tua obrigação". Na hora ficou chateado, hoje entende. Se o aluno foi o melhor da sala, aí dá para pensar em prêmio.

Na empresa, a versão disso é a cesta ou o dinheiro para quem não atrasar, não faltar e bater o ponto certinho. "Eu sou radicalmente contra premiar obrigação", diz Campa. E devolve a pergunta ao dono: algum funcionário já premiou você por pagar o salário em dia? Não acontece, e nem tem de acontecer, "porque é a tua obrigação". A relação entre empresa e colaborador é feita de direitos e deveres, para os dois lados. "Bater ponto não é enfeite. Chegar no horário não é diferencial, é obrigação."

Quando o dono sai, a equipe desanda

Campa conta o caso de uma mentorada do Strats. A empresa dela tinha processos, regulamento interno, ponto eletrônico e rádio para a equipe se comunicar. Mesmo assim, o pessoal esquecia de bater o ponto no intervalo e, nos dias de movimento, ignorava o rádio e passava a gritar e a se xingar. A queixa dela, nas palavras que Campa reproduz: "Quando eu estou lá na operação, parece que tudo vai para o lugar. Agora, se eu não estou lá, as coisas não funcionam".

Ela já tinha treinado, dado advertência e até demitido por justa causa, e perguntou se havia alguma forma nova de premiar ou reconhecer. A resposta de Campa: "Isso não é questão de política, não é questão de gamificar, não é questão de premiar". O que ele mostrou a ela foi um tripé, três coisas que precisam existir na empresa.

Por que alguém escolheria trabalhar na sua empresa?

O primeiro ponto começa com essa pergunta. O bom profissional recebe várias propostas e escolhe. O mediano acaba contratado pelo dono desesperado, que abre a vaga um dia antes de precisar. "O medíocre vai trabalhar onde escolheram ele. O bom vai trabalhar onde ele escolhe."

Salário e benefício contam, mas o que mais retém, segundo Campa, é a organização da empresa, que impacta o nível de estresse ou de satisfação da equipe. E isso pesa na obrigação: se a empresa não atrai nem retém gente boa, a ameaça de demissão não funciona. O funcionário responde: "Cara, pode me demitir, eu não tô nem aí".

Regras claras e rito de penalidades

O segundo ponto são regras fortes, claras e consistentes, num regulamento interno escrito, revisado por um advogado trabalhista, com o rito de penalidades. Sem isso, a advertência solta não pesa, e um colega avisa o outro que vem só "uma bronquinha, mas vai ficar por isso mesmo". Nasce a cultura do "não dá nada". No exemplo de Campa, para quem esquece de bater o ponto no intervalo:

  • Primeira vez: advertência verbal, com base no regulamento assinado.
  • Segunda vez: advertência escrita, assinada ou com uma ou duas testemunhas.
  • Terceira vez: suspensão não remunerada de dois ou três dias, por exemplo.
  • Quarta vez: a empresa já pode chegar à justa causa, que, segundo ele, existe, desde que acompanhada de fatos, argumentos e provas.

Vale para todos. Se o dono faz vista grossa porque o funcionário é muito bom, os outros se sentem no direito de fazer igual, e quando ele cobra os outros "se torna um empresário injusto". O líder do setor cobra, o dono cobra o líder, e o regulamento tem penalidades para o líder também.

Cultura não é quadro na parede

O terceiro ponto é uma cultura forte, o jeito de ser da empresa. Muita empresa tem missão, visão e valores na parede, e o colaborador não sabe dizer nenhum. "Cultura não é para estar na parede", diz Campa. Ele compara com banho: tem de ser todo santo dia, senão as pessoas esquecem. Os exemplos dele: aqui a gente segue o regulamento, aqui a gente não grita, fala no rádio, aqui quem erra assume.

Com os três pontos de pé, cada um pesa o que perde: não quer sair de um lugar bom, não quer sofrer penalidade e não quer ser o único que foge da cultura.

Prêmio só para o que passa do esperado

Campa é contra prêmio para obrigação, não contra prêmio. Se um setor tem de fazer 100 atividades no mês e faz 110, aí entra o prêmio. No exemplo dele, quem tem meta de 10 e faz 12 ganha um prêmio de R$ 300 ou R$ 400. Se no mês atrasou ou faltou sem justificativa, recebe R$ 100 ou R$ 150. Conforme a penalidade, o prêmio "cai ou até morre".

Obrigação não se premia. Obrigação se cobra. O prêmio é para aqueles que excedem o esperado.

Campa

Quando ninguém cobra, sobra para o dono

Para Campa, é o ponto principal. Sobra no fim do dia, no fim de semana.

Quando você não cobra a obrigação, alguém tem que cumprir essa obrigação. Sabe quem é? Olhe para a tua carteira de identidade que você vai ver o nome.

Campa

Regra sem cobrança mexe com dois tipos de funcionário. O malandro se aproveita e estraga os outros: "Cara, deixa de ser bobo. Aqui ninguém cobra". A pessoa de valores, que faz tudo certinho, sente que não é justo e um dia sai com uma desculpa qualquer, uma oferta melhor, uma mudança.

O empresário sol, no centro de tudo, cobra isso sozinho. Quem sai do centro ganha tempo para organizar o regulamento, espalhar a cultura e implantar processos, e regra e consequência passam a ser algo natural. No Strats, o tema entra no pilar de pessoas comprometidas. Campa deixa uma pergunta: qual obrigação a sua equipe não cumpre hoje que você chegou a pensar em premiar? "Se pensou em premiar, para."

Momentos da live

  • 06:54 A nota 10 e a obrigação
  • 08:29 A pior forma: premiar a obrigação
  • 13:40 Por que alguém escolheria trabalhar na sua empresa
  • 18:35 Regulamento interno e rito de penalidades
  • 23:30 Cultura não é quadro na parede
  • 26:39 Prêmio só para o que passa do esperado
  • 30:52 O malandro e a pessoa de valores

Leia também Cultura forte não é frase na parede. É lucro, é legado, é paz e Sua gestão inspira… ou está boicotando o comprometimento da equipe?

Para quem quer aplicar isso na própria empresa, Campa convida a pedir uma reunião com a equipe da Viva Positivamente. E a live Papo Estratégico acontece toda terça, ao meio-dia, com um tema por edição: receba o aviso das próximas lives.

Ajudamos donos de empresa a ter uma empresa lucrativa que não depende deles para tudo.

Veja como podemos te ajudar
O nosso website usa cookies para ajudar a melhorar a sua experiência de utilização. Ao utilizar o website, confirma que aceita a sua utilização.